Centenas de trabalhadores que frequentam o histórico edifício Martinelli, no Centro de São Paulo (SP), apresentaram desde terça-feira (21) queixas semelhantes: dor de cabeça, febre, diarreia e vômitos. Sintomas de intoxicação, em alguns casos, exigindo cuidado hospitalar. O motivo, confirmado pela própria gestão municipal, foi a ingestão de água contaminada no local de trabalho após vazamento de esgoto para um dos reservatórios. Embora seja a mais grave até então, servidores destacam que a ocorrência não é inédita e cobram providências mais rápidas e efetivas.
O edifício abriga seis secretarias e órgãos municipais, além de empresas terceirizadas, com mais de 5 mil pessoas. “O caso estourou na terça depois das 11 horas. No mesmo dia, as pessoas foram orientadas a trabalharem em casa, mas eu chego antes das 10 e já tinha bebido a água”, relata um servidor que trabalha no prédio, cuja história é repetida dezenas de vezes entre os colegas.
Diante das denúncias, o vereador Nabil Bonduki (PT-SP) solicitou na quinta-feira (23) informações à Coordenadoria de Vigilância em Saúde de São Paulo (Covisa) sobre a água ingerida pelos servidores. Ao Brasil de Fato, o vereador afirmou que os primeiros resultados da Covisa indicam a presença da bactéria Escherichia coli que, em desequilíbrio, pode causar problemas dentro do intestino (diarreia) ou fora dele (infecção urinária). Ainda segundo ele, há registros de mais de 300 servidores que apresentaram sintomas.
Paralelamente, a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) entrou com representação no Ministério Público de São Paulo (PMSP) para que a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) seja investigada pelo vazamento.
No momento, os setores afetados estão em regime de teletrabalho e os trabalhadores que apresentaram problemas de saúde seguem afastados da função. Há, porém, uma queixa de servidores comissionados do município, que relatam suporte ineficiente ou tardio para lidar com a crise.
“Só agora, às 17h da sexta-feira (24), recebemos um comunicado com orientações de como realizar o exame necessário. Hoje é meu quinto dia de sintomas”, exemplifica uma servidora que prefere não ser identificada. “Nos foi solicitado que comunicássemos aos servidores que apresentaram sintomas gastrointestinais que, dentro das possibilidades, vá a uma unidade de saúde – UBS de referência e procure a sala da Vigilância Sanitária para coleta de coprocultura e a realização do exame”, diz o e-mail enviado aos funcionários da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), que funciona no edifício.
“A CIPA demorou bastante para se movimentar e passar essa orientação para nós Tentei atendimento hoje pela manhã em uma UPA, mais de 4 horas de espera. Se já tivesse essas diretivas desde o incidente, poderia ter ido direto a uma UBS, pelo menos teria conseguido a coleta de exames”, comenta outra servidora.
Trabalhadores também destacam que esta não é a primeira vez que problemas do tipo acontecem no prédio. “O pavimento da rua Líbero Badaró tem um cheiro podre, de esgoto, há muito tempo. Já tivemos outras situações de trabalho remoto por motivos de segurança sanitária. O edifício tem um problema sério de encanamento e esgoto”, diz um trabalhador. Em março do ano passado, o prédio também foi interditado por problemas relacionados ao esgoto – dessa vez uma inundação que atingiu o sétimo andar.
O vereador Nabil Bonduki reforça a denúncia. “A gestão demorou muito em agir, colocando centenas de servidores em risco. Foi omissa, já que esta não é a primeira ocorrência envolvendo a rede de esgoto e o reservatório de abastecimento de água para consumo”, diz.
Para ele, o edifício demonstra incapacidade estrutural para a demanda de frequentadores. “No caso do Edifício Martinelli, patrimônio arquitetônico importante da cidade, não há condições adequadas para os milhares de servidores e usuários. Entre os problemas está o sistema de abastecimento de água e rede de esgoto em situação de precariedade; a rede elétrica também está sobrecarregada, representando risco de incêndio; a maioria dos andares não atende às regras de acessibilidade, entre outros. A concessão precisa ser reavaliada inclusive”, reforça.
A Prefeitura de São Paulo e o Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindsep) não responderam até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto.




Deixe seu comentário