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GEOPOLÍTICA

Holanda encerra ciclo da extrema direita e recoloca centro liberal no poder

Rob Jetten, de 38 anos, é confirmado vencedor das eleições legislativas e deve se tornar o mais jovem primeiro-ministro da história moderna do país

O liberal Rob Jetten, líder do partido Democratas 66 (D66), foi confirmado como o vencedor das eleições parlamentares holandesas realizadas na última quinta-feira (29), encerrando o ciclo de hegemonia da extrema direita nos Países Baixos.

Com quase todos os votos apurados, o D66 obteve cerca de 18% da votação nacional e uma vantagem de 15.155 votos sobre o Partido da Liberdade (PVV), de Geert Wilders, segundo a agência ANP.

O PVV é uma legenda de extrema direita nacionalista, conhecida por seu discurso anti-imigração, anti-Islã e eurocético. Fundado por Wilders em 2006, o partido defende o fechamento de fronteiras, a proibição de mesquitas e o afastamento da Holanda da União Europeia.

Apesar de ter vencido as eleições de 2023, o PVV perdeu apoio após uma série de crises internas e o colapso do governo que liderava, derrubado em junho de 2025 por divergências sobre políticas de asilo e reunificação familiar.

A vitória, definida por uma das margens mais estreitas da história eleitoral do país, deve levar Jetten, de 38 anos, a se tornar o mais jovem primeiro-ministro da história moderna holandesa.

O resultado marca uma guinada simbólica no mapa político europeu: o país que há dois anos havia sido palco do avanço do extremista Wilders volta a ser comandado por uma liderança liberal, pró-União Europeia e comprometida com a reconstrução democrática.

O D66, fundado em 1966, saltou de nove para 26 cadeiras no Parlamento, podendo chegar a 27 — um crescimento inédito para uma legenda centrista em meio à fragmentação partidária que caracteriza o sistema político holandês.

A formação do novo governo, contudo, exigirá complexas negociações de coalizão, já que o D66 precisará de pelo menos três aliados para atingir a maioria de 76 assentos.

O processo de confirmação final do resultado ocorrerá em 7 de novembro, após a contagem dos votos de cerca de 90 mil holandeses no exterior.

A cidade de Venray, no sudeste do país, também deve divulgar seu resultado definitivo nos próximos dias, após um incêndio na prefeitura ter atrasado a apuração.

Apesar dos detalhes pendentes, a vantagem consolidada do D66 torna irreversível a derrota de Wilders e simboliza o enfraquecimento da retórica de intolerância que marcou a última legislatura.

A derrota de Wilders e o refluxo da extrema direita

O líder de extrema direita Geert Wilders, conhecido por sua retórica anti-islã e propostas como o banimento do Alcorão, recusou-se a reconhecer o resultado e acusou a imprensa de favorecer o adversário.

Wilders chamou a agência ANP de “ANP66” e divulgou nas redes sociais alegações sem provas sobre supostas irregularidades na votação, desmentidas por autoridades locais.

A prefeitura de Zaanstad, uma das cidades citadas, afirmou que “a votação ocorreu com total transparência e supervisão”.

A recusa de Wilders em admitir a derrota reflete o desgaste da extrema direita após dois anos de governo instável.

O PVV havia vencido as eleições de 2023, conquistando 37 cadeiras, mas o gabinete desabou em junho de 2025 após impasses sobre políticas de asilo e reunificação familiar.

A crise levou à convocação de novas eleições antecipadas e abriu caminho para a reorganização do centro político, que emergiu fortalecido em meio à fadiga social provocada pelo discurso de ódio e pelas divisões internas.

A vitória de Jetten representa um realinhamento mais amplo na Europa Ocidental.

Analistas da Deutsche Welle e da Reuters interpretam o resultado como um contraponto à ascensão da extrema direita em países como França, Alemanha e Reino Unido.

O caso holandês mostra que o eleitorado urbano e jovem tende a reagir contra a polarização e a buscar alternativas que combinem estabilidade política, regulação social e políticas climáticas ambiciosas.

“Mostramos à Europa e ao mundo que é possível derrotar o populismo com uma mensagem positiva”, declarou Jetten após o anúncio da ANP.

Jetten propõe reconstrução democrática e coalizão de centro amplo

Ex-ministro de Clima e Energia no governo de Mark Rutte, Jetten apresentou durante a campanha um programa de reconstrução social e ecológica para o país.

Entre as prioridades estão a construção de dez novas cidades e cem mil moradias por ano, a expansão de políticas preventivas em saúde e a redução do custo da energia por meio da transição verde.

O centrista também defende uma reforma na política migratória baseada em integração linguística e laboral, com a possibilidade de pedidos de asilo fora da União Europeia, além da expulsão de imigrantes irregulares.

Com 18% dos votos, o D66 obteve uma pluralidade clara, mas distante da maioria absoluta, o que exigirá negociações prolongadas.

O partido já sinalizou que pretende buscar uma coalizão de centro amplo, com o VVD (liberal-conservador), a aliança GroenLinks/PvdA (verde-trabalhista) e o CDA (centro-democrata-cristão) — juntos, somariam 85 a 87 cadeiras.

A primeira fase das conversas será conduzida por um “olheiro” (scout) designado pelo Parlamento em 4 de novembro, que sondará as possibilidades de acordo antes da escolha do “formador” responsável por montar o novo gabinete.

Jetten afirmou sentir “grande responsabilidade” após o resultado e prometeu formar um governo estável, progressista e moderado.

O atual premiê interino, Dick Schoof, já admitiu que deve permanecer no cargo até o Natal.

Mesmo assim, a vitória do D66 é vista como um divisor de águas: encerra o ciclo de hegemonia da extrema direita e recoloca a Holanda no campo liberal-progressista europeu, ao lado de França, Alemanha e Espanha.

O país, símbolo histórico de tolerância e modernidade política, retoma agora seu papel de ponte entre o humanismo social e a governabilidade democrática.

Fonte: Portal Vermelho

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