A Secretaria de Educação do Pará, comandada por Rossieli Soares, firmou contratos de mais de R$ 500 milhões com a Sudu Tecnologia Educacional, empresa que representa a Somos Educação no estado. A Somos é ligada ao empresário Mario Ghio Jr., que doou R$ 20 mil à campanha de Rossieli para deputado federal em 2022. Os contratos, que incluem a compra de 1,43 milhão de kits didáticos com correção de provas por inteligência artificial, colocam o secretário no centro de uma crise que abalou o governo paraense nas últimas semanas.
A crise explodiu após o governador Helder Barbalho (MDB) sancionar a lei estadual 10.820/2024, que desarticulou programas de ensino em comunidades isoladas, reduziu salários de professores e ampliou o ensino a distância. A medida gerou uma greve de professores e levou indígenas a ocuparem a sede da Secretaria de Educação (Seduc), exigindo a revogação da lei e a demissão de Rossieli. Sob pressão, Barbalho enviou um projeto para revogar a lei, aprovado por unanimidade pela Assembleia Legislativa. Rossieli, no entanto, permanece no cargo.
Os contratos com a Sudu chamam a atenção pelo ritmo acelerado e pela falta de transparência. A Consulta Pública 001/2023, que deu início ao processo, previa apenas um dia para confirmação de participação. A Sudu, fundada em 2019, já foi investigada por suspeitas de fraude em licitações no Amazonas e em Porto Alegre. Apesar disso, venceu licitações no Pará para fornecer materiais didáticos, incluindo o projeto “Prepara Pará”, que usa plataformas online e livros da Somos.
A relação entre Rossieli e a Somos vai além dos contratos. Enquanto a Sudu fornecia materiais para o Pará, a Somos patrocinou um evento do Lide Educação, grupo presidido pelo próprio Rossieli. O secretário defende a participação da iniciativa privada na educação pública, mas sua atuação no Lide e os contratos com a Sudu levantam questões sobre conflitos de interesses.
A Seduc nega irregularidades, afirmando que os contratos seguiram a legislação vigente. A Somos também se defende, dizendo que não tem parceria direta com a Seduc, apenas com a Sudu. Mario Ghio Jr., ex-presidente da Somos e doador da campanha de Rossieli, preferiu não comentar.
Enquanto isso, a crise na educação do Pará expõe os desafios de um sistema que prioriza soluções privadas em detrimento do ensino público. Com a COP30 se aproximando, o estado precisa resolver não apenas os problemas educacionais, mas também as questões de transparência e ética que envolvem seus líderes.
Fonte: Intercept Brasil




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