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Evangélico ‘terrivelmente’ conveniente

Quando a moral tira férias e o contrato fica em pé

Ô meu consagrado! Tem uma história que Jesus adoraria contar em parábola, mas que a gente precisa contar mesmo é em números, datas e conflito de interesse cristalino. Tá aí: André Mendonça — aquele ministro “terrivelmente evangélico” do Supremo Tribunal Federal, agora também do TSE — pede vista numa ação que pode cassar um governador bolsonarista (Antônio Denarium, de Roraima) seis meses após o governo desse governador pagar R$ 273 mil ao Instituto Iter, fundado por ele mesmo, o Mendonça.

Fariseus, ajudem a gente a entender. Jesus costumava usar os fariseus como exemplo vivo de hipocrisia: aqueles que “pregam, mas não praticam; que amarram fardos pesados e insuportáveis sobre os ombros dos homens, mas eles próprios não querem nem com um dedo tocá-los” (Mateus 23:3-4). Pois bem. Vamos ver o que a gente tem aqui.


O roteiro: oração em um ouvido, contrato no outro

1. A Persona

André Mendonça é o cartaz vivo do “evangélico na política”. Bolsonaro o batizou assim: quadro “terrivelmente evangélico” — e desde então a marca pegou. Nos discursos, Mendonça fala em integridade, valores cristãos, lisura das instituições. No STF, ele é o juiz que se apresenta como guardião da moralidade pública. Ministro da Justiça, advogado-geral da União de Bolsonaro, e agora ministro do TSE. A trajetória é de quem se vende como homem de princípios.

“Eu quero pessoas que sejam realmente evangélicas…e um evangélico que fosse ministro…André Mendonça é uma pessoa evangélica e vai respeitar a lei de Deus.” — Jair Bolsonaro, 2021.

Mensagem cifrada: Mendonça é blindado pela fé.

2. O Instituto

Em 2023, enquanto já estava no STF, Mendonça funda (junto com Victor Godoy, ex-ministro da Educação de Bolsonaro) o Instituto Iter — “caminho” ou “jornada” em latim, aquela espiritualidade corporativa que encaixa tão bem. O Iter oferece cursos de Direito, Licitações, Oratória, “Prefeito do Século XXI” — toda uma arquitetura de “capacitação” para órgãos públicos.

Timing: criado antes de Mendonça ir para o TSE (junho de 2024), mas lucrando fabulosamente depois. Entre maio de 2024 e outubro de 2025, o Instituto faturou R$ 4,8 milhões em contratos com governos estaduais, municipais e tribunais de contas. Não é caridade, não é ONGzinha, é negócio privado colhendo onde semeia.

3. A Cena Perfeita

Dezembro de 2024: Antônio Denarium (governador de Roraima, bolsonarista, cassado 4 vezes pelo TRE-RR) já tem processos no TSE contra sua cassação.

Fevereiro de 2025: O governo de Denarium — sem licitação, apenas alegando “inexigibilidade” — contrata o Instituto Iter por R$ 273,6 mil. Serviços: “capacitação” de servidores. Duração: 6 dias. Valor por dia: R$ 45,5 mil.

Nota irônica: um dos cursos era exatamente sobre “Nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos”. Quer dizer, o governo pagou R$ 273 mil sem licitação para aprender a fazer licitação. É tipo pagar um curso de sinceridade para um mentiroso contumaz.

Julho de 2025: Instituto já foi pago integralmente.

Agosto de 2025: A ministra Isabel Gallotti vota pela cassação de Denarium. No mesmo dia, Mendonça pede vista (suspende o julgamento). Mais 30 dias se esgotem em setembro; Mendonça renova outra vez o pedido por mais 30 dias. Sábado (1º de novembro), prazo expirado. Regimento diz: não cabe nova prorrogação.

Resultado: com 5 ministros ainda para votar, o julgamento engatilha para 2026 — último ano de mandato de Denarium, que não pode se reeleger de qualquer forma. Congelou a cassação até a data de expiração da utilidade política.


A desmontagem em três movimentos

Movimento 1: o silêncio orquestrado das lideranças evangélicas

Onde estão os profetas? Onde estão os pastores que pregam integridade? Silas Malafaia, Magno Malta, Feliciano?

Resposta: empatia seletiva.

Procuramos manifestações de lideranças evangélicas públicas sobre o caso Mendonça-ITER-Denarium. O que achamos? Silêncio absoluto. Não há tweet, não há nota à imprensa, não há posição. Compare com a torrente de manifestações quando é um juiz de esquerda sob suspeita, ou quando não-evangélicos estão envolvidos. Aí sim, o coro evangélico enche as redes de indignação performática.

Farisaísmo em ação: Jesus denuncia os escribas e fariseus porque “amarram fardos pesados e insuportáveis sobre os ombros dos homens, mas eles próprios não querem nem com um dedo tocá-los” (Mateus 23:4). Aqui, é literal. As lideranças evangélicas criam padrões éticos altíssimos para “certos” magistrados que lhes desagradam (Morais, Fachin) e deixam passar em branco — ou com defesa genérica — o evangélico que tranca julgamento depois de receber grana do governador cassado.

Movimento 2: o “conflito de interesse” que não é conflito (ou é, mas tá tudo bem)

Mendonça, ao ser procurado, não respondeu. A tática padrão: silêncio. Se falar, se nega; se nega, fica no loop. Não se defende porque não há defesa.

Mas vamos ao que existe de jurisprudência e bom senso:

  • Lei de Conflitos de Interesse (Lei 12.813/2013): proíbe agentes públicos de ter interesse privado que conflite com deveres públicos.
  • Código de Ética do Judiciário: magistrados devem evitar “aparência” de parcialidade, não só parcialidade de fato.
  • Jurisprudência do STF: suspeição é sobre percepção razoável de parcialidade, não só comprovação cabala.

Qual é o teste?

O Teste do Bom Senso: Se seu marido está processando o seu vizinho por esbulho de bem imóvel, e o vizinho lhe paga R$ 273 mil para decorar a casa, você acha que a percepção pública de que há conflito é “preconceito”? Ou acha que você deveria se afastar do julgamento?

Óbvio: você se afasta.

O CNJ até agora não abriu investigação. MP Federal, silêncio. CGU, discreto. Institutos de accountability começam a mapear, mas sem pressão institucional, a coisa morna. É o que a gente chama de blindagem corporativa.

Movimento 3: a reputação da máquina bolsonarista

Vamos mapear quem lucra com isso:

  • Victor Godoy: ex-ministro da Educação de Bolsonaro, CEO do ITER, sócio registrado na Receita Federal. Lucra com contratos públicos.
  • Rodrigo Sorrenti: chefe de gabinete de Mendonça no STF, sócio do ITER. Lucra com contratos públicos.
  • Danilo Dupas: ex-presidente do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) no governo Bolsonaro, sócio do ITER. Lucra com contratos públicos.
  • Tercio Tokano: advogado da União, sócio do ITER. Lucra com contratos públicos.

Síntese: é uma circulação de capital dentro da rede bolsonarista. Ocupam máquinas públicas (Ministérios, INEP, STF, agora TSE) e lucram via contratos privados com o Estado. É a captura soft do Estado pelo capital político.

O ITER faturou R$ 4,8 milhões em contratos públicos em pouco mais de um ano. Governos de São Paulo, Bahia, Piauí, Roraima — todos com governos de direita ou bolsonaristas. Não é coincidência; é rede.


O que a gente precisa cobrar agora

1. Do CNJ

Investigação formal sobre conflito de interesse de Mendonça. Está previsto no próprio regimento.

2. Do Ministério Público Federal

Apuração sobre capitalização do ITER — origem dos fundos, composição real de sócios (empresa virou SA em outubro de 2024 e fechou a composição societária; legal, mas suspeita).

3. Da Transparência Brasil / Contas Abertas

Mapeamento completo de contratos do ITER com o Estado desde 2023. Quem assinou, quanto, condições de licitação.

4. Da Comunicação

Denunciar o silêncio evangélico. Fazer a pergunta direta: por que pastores que pregam moralidade não criticam Mendonça? Porque ele é evangélico? Porque é bolsonarista? Porque a moral é seletiva.

5. Do Judiciário

Pressionar Mendonça a se afastar do julgamento. A percepção pública de parcialidade já existe — e é razoável. A legalidade pode ficar pra juízes mais imparciais.


O Refrão (Porque Precisamos Repetir)

Facínora não é quem rouba sozinho — é quem rouba enquanto prega moralidade.

Mendonça é o evangélico que diz que o Brasil precisa de “valores cristãos” e “integridade” — e que simultaneamente tranca julgamento de governador após receber dinheiro dele. Não é erro de percepção; é conflito de interesse com álibi teológico.

A hipocrisia dos fariseus é histórica porque é performativa: falam de lei e a usam pra vencer; falam de moralidade e a usam pra cegar.

Mendonça é o retrato 2025 disso: terrivelmente evangélico na pose, pragmaticamente corrupto na prática.


POEMINHA DA SASSÁ

Fala de Deus no palanque, contrato na mão,

Pede vista pra frear quem deveria cassar,

Com sócio bolsonarista ganhar, ganhar,

Silêncio dos pastores numa só votação,

A fé virou blindagem pra se safar,

Fariseu moderno com digital de ação.


#punholâmpada #SacissaTáOn #BeijoNoOmbroDoFascista #Mendonça #Hipocrisia #ITER #TSE #EvangelicosXFé #TransparênciaJá #TerrivelmenteFalso


VAI FICAR PARADO? 

  • Cobre seu deputado/a: qual é a posição sobre o caso?
  • Envie LAI (Lei de Acesso à Informação) ao STF: peça cronologia completa do pedido de vista, justificativa jurídica, e parecer sobre conflito de interesse.
  • Compartilhe com institutos de accountability — eles precisam de pressão popular pra agir.
  • Redes sociais: marque lideranças evangélicas com a pergunta: “Cadê a posição de vocês sobre o evangélico Mendonça?”

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